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Cuidado Frágil

Estive pensando na brevidade em que a vida passa diante de nossos olhos. A pandemia que estamos vivendo que não discrimina cor, etnia, gênero, classe social e orientação sexual, obriga cada um de nós, seres humanos, a desacelerar e me fez refletir sobre o quanto somos tão diferentes e ao mesmo tempo, iguais.

Sim, iguais. Nós que por natureza precisamos do convívio e contato com o outro e por vezes não nos damos conta disso. Iguais porque desde bebês chorávamos e ficávamos desesperados se nos tirassem do colo de nossas mães. Nós que precisávamos não somente de alimento e realizar nossas necessidades fisiológicas, mas também de algum vínculo confiável com alguém que se dedicasse a cuidar de nós. Precisávamos nos sentir pertencentes a uma família, valorizados ao escrever a nossa primeira letra do alfabeto, validados, reconhecidos a cada nova descoberta feita sobre o mundo e assim formávamos o que chamamos hoje de autoestima.

Por vezes, precisávamos de autonomia para correr, cair e levantar por nós mesmos, pois a cada queda aprendíamos sem saber, que não há aprendizado sem erros. Ao mesmo tempo que pedíamos por autonomia, lá no fundo olhávamos para trás em busca de orientação sobre até onde poderíamos ir e lá estava o olhar do nosso cuidador, comunicando em silêncio o limite.
Houve momentos em que tudo o que precisávamos era brincar na rua, fantasiar e sermos aceitos por ser nós mesmos na roda de amigos da escola, afinal assim sentíamos pertencer a um grupo. Quando adolescentes, lá no fundo queríamos ser amados e aceitos sem precisar atender nenhuma condição para isso, mas sinceramente, eu nunca conheci nenhum ser humano que tenha recebido tudo isso de forma satisfatória, não mesmo!

Se algumas destas necessidades foram frustradas lá atrás, parece que nessa longa estrada da vida, o ser humano sai em busca do que lhe faltou… alguns de forma exagerada. Uns querem “sucesso”, sendo os mais bem sucedidos e valorizados ativando o modo workaholic, outros querem o corpo mais sarado ou mais magro, encaixando-se dentro do padrão esperado destes tempos modernos, mas quem sabe lá no fundo estão buscando serem mais aceitos ou valorizados por isso? Enquanto outros querem bens materiais ou virtuais que elevem seu status social, outros querem ser os mais inteligentes ou perfeitos, quem sabe lá no fundo se sintam mais aprovados e admirados por isso? 

Sim, cada um de nós sabemos o que nos falta e talvez este seja o jeito que aprendemos a sobreviver e pedir o que necessitamos ao mundo, sempre de acordo com as lentes que nossas experiências silenciosamente fixaram em nosso olhar.

O ser humano é complexo e ambivalente, pois agora que estamos isolados, sentimos falta do contato com o outro, e quando em contato com o outro, algumas vezes fugimos, sim, fugimos por nossas legítimas razões. Alguns fogem da conexão emocional com o outro, alguns fogem por medo de sofrer num futuro que ainda nem existiu, outros fogem por medo de não serem correspondidos na mesma intensidade a que se doaram, sentindo raiva de si mesmos, alguns fogem por medo de serem abandonados e ficarem só e outros por medo da possibilidade do outro descobrir aquele sentimento de defectividade secreto ao qual durante toda a vida foram convencidos a acreditar e se envergonharem.

São tantos motivos para fugir que quem quer fugir tem o seu modo, seja bebendo demais, comendo demais, comprando demais, rejeitando para não ser rejeitado, abandonando para não ser abandonado, atacando para não ser atacado ou de alguma forma que se desconecte do que mais dói em nós, a vulnerabilidade.

E agora estamos desacelerados e entediados diante dela, a vulnerabilidade que temos diante do  medo legítimo de crises que podem estar por vir, pois é no mínimo angustiante não saber, como ficarão as pessoas que mais amamos, como será nosso futuro depois disso tudo, e o pior, não temos respostas.

Então sim, digo que o que temos em comum é que ao mesmo tempo que lutamos ou fugimos do que mais nos dói, na mais profunda camada, chegamos ao centro de nós mesmos, nossa criança, frágil e vulnerável.

Mesmo o ser humano aparentemente mais “durão” e “frio” lá no fundo tem uma criança frágil por trás da carapaça… aquela pessoa que seu santo não bate, frágil, o(a) seu(ua) chefe, frágil, aquela pessoa do seu trabalho, incomodada com você que lhe faz criticas e te põe pra baixo, frágil, você, frágil.

A fragilidade é uma condição humana e pode ser exposta quando frustramos o que buscamos, isto faz parte de nossa experiência humana, experimentamos tanto os momentos de prazer e somos corajosos por experimentar os momentos de dor.

Diante de um momento como este, relembramos do que todos os dias queremos esquecer, a iminência de que uma hora nossa vida irá terminar e que não queremos saber quando, mas queremos aproveitar esse momento breve e avassalador que se chama vida ao lado de quem amamos, amados, valorizados e protegidos.

Costumo dizer que somos quase tão frágeis como um dente de leão, sabe aquela plantinha medicinal que ao menor toque de alguém ou sopro se desmancha facilmente? Sim, assim somos nós humanos com nossas emoções, ao menor sopro das circunstâncias, internamente nos desmanchamos e somos inundados de emoções.

Emoções são como ondas do mar, incontroláveis ou como areia movediça, quanto mais nos debatermos, mais podemos afundar, aqui cabe a famosa frase “a diferença entre o antídoto e o veneno é a dose” e talvez aqui o problema não seja experimentar as emoções penosas, mas sim o que escolhemos fazer com elas, como decidimos agir… Fugir? Lutar? Desistir? Será que isso têm funcionado ou aumentado a força com que as emoções surgem?

Talvez para vivermos este momento tão difícil, podemos encontrar razão na emoção.

Sim, toda emoção tem sua razão, explico, a tristeza serve para mudarmos de caminho quando perdemos algo que é importante para nós e corrigir o caminho para irmos de encontro ao que realmente nos faz bem, a ansiedade por sua vez, serve para nos mantermos longe de qualquer ameaça, o medo então, serve para evitarmos o que pode ser fatal e pasme… a inveja, os nossos ancestrais utilizavam para ganhar energia e obter os mesmos ou melhores recursos que o líder do grupo obtinha e assim davam continuidade em nova liderança formando novos grupos o que contribuiu para chegarmos em novos lugares, mas e o ciúmes?  O ciúmes serve para  manter uma conexão emocional segura com o outro, mas o que decidimos fazer com ele, é outra estória.

Toda emoção tem sua voz e em nossa condição humana talvez o que nos resta é ouvi-las e aceitá-las, mesmo não sendo nada fácil, a duração de uma emoção é como uma vela predestinada ao ciclo de apagar e reacender. Então talvez você acredite que funcione edificar um muro contra as emoções mais dolorosas que você já sentiu ou talvez acredite que toda sua energia deve ser investida em compensar o que você não sentiu, mas uma coisa você e eu teremos sempre em comum como simples humanos, o aviso de cuidado, frágil.